DESDE 2021 · ANTUÉRPIA
Rien desenhou 4.000 cartelas flash antes de ensinar o Inke a desenhar uma.
Essa é a versão longa de uma história pequena. Um sebo na Kloosterstraat, um livro de flash do Sailor Jerry herdado da avó, quatorze anos atrás da máquina na beira do Escalda, um burnout silencioso, uma gata preta muito paciente e a ferramentinha que virou Inke. Se você quiser a versão curta, ela está na home.
O livro de flash.
A avó da Rien guardava um livro de capa dura com cartelas de flash do Sailor Jerry dos anos 60, comprado nos anos 70 num sebo na Kloosterstraat, em Antuérpia. Rien achou o livro atrás de uma pilha de álbuns de fotos aos treze anos e decalcou cada página com papel vegetal e lápis 2B. Ela ainda tem os decalques, e ainda tem o livro. A lombada é segurada por uma fita de linho.
Quatorze anos atrás da máquina.
Começou como aprendiz aos dezenove com um velho tatuador da beira do Escalda que só pegava walk-ins na tarde de terça e recusava trabalhar a partir de foto de celular. Quatorze anos depois, tinha desenhado mais de 4.000 cartelas flash à mão, se especializado em american traditional e motivos folclóricos belgas, e construído reputação por tatuagens que ainda lêem limpas aos vinte anos. Foi toda a escola dela. Não teve faculdade.
Por que o Inke começou.
Em 2021 ela se cansou. Cansou de mandar pros clientes referência de Instagram que nunca batia com o tom de pele deles, cansou de explicar por que um fine-line escuro ia virar borrão em tom mais quente, cansou de consultas de quarenta minutos que terminavam em confusão. Então construiu uma ferramentinha de rascunho pro próprio estúdio. Chamou de Inke porque a gata se chama Tinta e as duas palavras rimavam na cabeça dela. Essa é a história toda.
Por que foi ficando em silêncio.
Ela tocou sozinha, do mesmo quarto onde tatuava, por dois anos. Nunca foi pra virar startup. Aí em 2024 ela teve um burnout de verdade, aquele que faz você parar de desenhar, e tirou o ano inteiro. Sem email, sem máquina, só longas caminhadas pela beira do Escalda e muita leitura. Em janeiro de 2026 ela voltou com uma versão mais limpa e abriu a porta de novo.
O que a Tinta acha.
Tinta é uma gata preta com a orelha esquerda um pouco rasgada e opiniões bem fortes sobre teclado. Ela passou a maior parte da reconstrução sentada em cima da barra de espaço, e por isso as três primeiras versões do Inke só aceitavam prompt em letra minúscula. Rien consertou isso depois. A Tinta continua sem se convencer. Para todos os efeitos, ela é a diretora criativa de verdade.
Onde o estúdio está hoje.
Uma sala em cima de uma loja de tecidos em Dageraadplaats, no bairro Zurenborg de Antuérpia. Uma mesa de madeira junto da janela, uma máquina de tatuagem em cima de um pano limpo dobrado, um laptop um pouco quente demais, um cacto meio morto, e a Tinta em cima do aquecedor. É isso. Sem time, sem escritório, sem deck de investidor, sem série A, sem pivô. Só uma tatuadora que aprendeu a ensinar um computador a desenhar.
UM BILHETE DO ESTÚDIO
se você está lendo, obrigada. fiz o inke pra que as pessoas parassem de se arrepender das tatuagens. não fiz pra ficar famosa, nem pra levantar dinheiro, nem pra mudar o mundo. fiz porque cansei de ver ideia boa virar tatuagem ruim. se isso te ajuda, ótimo. se não ajuda, me conta e eu conserto.
Rien · Antuérpia · 2026
Passa pra dar um oi.
A porta em Dageraadplaats abre sábado, das 14h às 18h. Se é longe, manda um bilhete. A Rien lê todos.